Os três caminhos: uma conversa sobre estudo, escolhas e futuro
Há uma aula que não está propriamente no currículo de Ciências ou de Biologia, mas que faço questão de repetir todos os anos, sempre que recebo uma nova turma. É uma aula essencialmente dialógica. Não tem fórmula para decorar, conceito científico para copiar ou exercício para entregar. É, antes de tudo, uma conversa sobre escolhas, possibilidades e futuro.
Costumo começar contando um pouco da minha própria trajetória. Não para apresentá-la como exemplo de sucesso, muito menos como uma receita que possa ser reproduzida por todos, mas porque acredito que nossas experiências também podem servir como elementos para pensar a vida.
Conto aos estudantes que minha formação aconteceu na escola pública e que foi por meio da educação que consegui chegar ao Ensino Superior, concluir uma universidade pública e me tornar professor. Fui o primeiro de minha família a alcançar uma formação universitária desse tipo. Isso representou um verdadeiro divisor de águas em minha vida pessoal e profissional.
A educação não me tornou rico. Também não tornou minha vida livre de dificuldades. Mas ampliou profundamente aquilo que eu poderia fazer dela.
Foi estudando que conheci outros mundos, desenvolvi capacidades que antes não possuía, encontrei oportunidades profissionais e passei a compreender melhor a sociedade e o próprio lugar que ocupo nela. O estudo não resolveu todos os meus problemas, mas aumentou significativamente as ferramentas que eu tinha para enfrentá-los.
É a partir dessa experiência que proponho aos estudantes uma reflexão que chamo, informalmente, de “os três caminhos”.
Digo a eles que, de maneira bastante simplificada, podemos imaginar três caminhos pelos quais uma pessoa poderia tentar alcançar aquilo que considera uma vida satisfatória, com algum bem-estar, segurança, realização e qualidade de vida.
O primeiro caminho: a trapaça
O primeiro é aquele que aconselho imediatamente a não seguir.
É o caminho da fraude, da corrupção, do crime, da exploração do outro e das diferentes formas de obter vantagens indevidas.
Alguém pode argumentar que existem pessoas que enriquecem rapidamente dessa maneira. E é verdade. O problema é aquilo que se coloca permanentemente em jogo.
Quem constrói sua vida sobre a ilegalidade pode conquistar dinheiro, mas passa a apostar diariamente algo muito mais valioso: a própria liberdade e, em determinadas situações, até a própria vida.
E costumo dizer aos estudantes que, para mim, perder a liberdade talvez seja uma das piores perdas possíveis.
Além disso, há uma questão que considero ainda mais profunda: que valor tem uma conquista quando sabemos que ela dependeu de prejudicar, enganar ou explorar outras pessoas?
Por isso, esse primeiro caminho pode parecer curto para alguns, mas é uma enorme armadilha.
O segundo caminho: a sorte
Depois apresento o caminho da sorte.
É perfeitamente possível alguém ganhar na Mega-Sena. Alguém pode receber inesperadamente uma grande herança. Um jovem pode se tornar um jogador de futebol mundialmente famoso. Outra pessoa pode alcançar enorme sucesso como atriz, cantor ou influenciador. Alguém pode conhecer uma pessoa milionária e casar-se com ela.
Todas essas coisas podem acontecer.
O problema começa quando transformamos possibilidades excepcionais em projeto de vida.
Costumo brincar com os estudantes dizendo que encontrar cinquenta reais na rua é sorte. Mas perder cinquenta reais na rua também faz parte do mesmo universo do acaso. Quem decide entregar seu futuro à sorte precisa lembrar que existe também o azar.
Isso não significa abandonar sonhos. Muito pelo contrário.
O estudante que sonha em ser jogador deve jogar. Quem deseja ser atriz deve fazer teatro. Quem quer viver de música deve cantar, estudar música e buscar oportunidades. Sonhos são importantes porque também movimentam nossas vidas.
O que questiono é a ideia de simplesmente esperar que algo extraordinário aconteça.
Porque esperança e projeto são coisas diferentes.
O terceiro caminho: o mérito
Então chegamos ao terceiro caminho.
É justamente o que costuma parecer menos interessante quando somos muito jovens, porque normalmente é o mais demorado.
É o caminho do mérito construído pela dedicação pessoal, pelo estudo, pelo trabalho, pela persistência e pela disposição para aprender.
Quando utilizo a palavra mérito, entretanto, não estou dizendo que todas as pessoas partem do mesmo ponto ou possuem as mesmas oportunidades. Sabemos que não possuem. Existem desigualdades econômicas, familiares, sociais, territoriais e educacionais que interferem profundamente nas possibilidades de cada pessoa. Há quem precise percorrer dez quilômetros enquanto outros começam a caminhada muito próximos da chegada.
Reconhecer essas desigualdades é indispensável.
Mas reconhecer que as condições são diferentes não significa concluir que nossas escolhas, esforços e atitudes sejam irrelevantes.
É justamente aí que está o sentido de mérito que procuro discutir com meus estudantes: fazer o melhor possível com as possibilidades que temos e, ao mesmo tempo, buscar ampliar essas possibilidades.
Esse caminho não promete riqueza.
Estudar não garante que alguém ficará milionário. Ter um diploma tampouco assegura emprego, felicidade ou ausência de dificuldades. Seria irresponsável dizer isso aos estudantes.
O que o estudo pode fazer é algo diferente e, talvez, muito mais importante: ampliar possibilidades.
Cada conhecimento adquirido, cada habilidade desenvolvida, cada curso concluído e cada experiência vivida pode acrescentar uma nova ferramenta àquilo que somos capazes de fazer.
Afinal, como disse o filósofo Francis Bacon: “Saber é poder.“
Por isso, costumo dizer que esse é o caminho mais longo e provavelmente o mais difícil dos três. Ele exige acordar cedo muitas vezes. Exige estudar quando seria mais agradável fazer outra coisa. Exige errar, tentar novamente, enfrentar frustrações e compreender que determinados resultados levam anos para aparecer.
Mas há uma diferença fundamental.
Aquilo que você aprende passa a fazer parte de você.
Podem desaparecer empregos, dinheiro, cargos e circunstâncias favoráveis. O conhecimento também pode precisar ser atualizado e reconstruído ao longo da vida, mas aquilo que aprendemos transforma nossa própria capacidade de compreender, decidir e agir.
Talvez seja essa uma das maiores riquezas proporcionadas pela educação.
Não é uma promessa. É uma aposta mais segura.
Ao final dessa conversa, não digo aos estudantes que estudar garantirá sucesso.
Não posso fazer essa promessa.
Também não apresento minha própria trajetória como prova de que “quem se esforça consegue”, porque a vida é muito mais complexa do que essa frase permite enxergar.
O que posso dizer é outra coisa.
Entre entregar meu futuro à trapaça, entregá-lo ao acaso ou trabalhar ativamente para construir minhas próprias possibilidades, continuo escolhendo a terceira alternativa.
Foi essa escolha que transformou minha vida.
A escola pública que frequentei, os professores que encontrei, as oportunidades educacionais que surgiram e, também, minha decisão de continuar estudando permitiram que um caminho que não estava previamente garantido para mim se tornasse possível.
E talvez essa seja a principal mensagem que desejo deixar aos meus estudantes.
Estudar não é garantia de que a vida será fácil. É uma maneira de aumentar nossa capacidade de enfrentá-la.
Não sabemos exatamente quais oportunidades aparecerão daqui a cinco, dez ou vinte anos. Muitas das profissões, tecnologias e desafios que esses jovens encontrarão sequer existem ainda. Mas quanto maior for seu repertório de conhecimentos, habilidades e experiências, maior tende a ser sua capacidade de reconhecer oportunidades e responder às dificuldades que surgirem.
Por isso, quando converso sobre os três caminhos, não estou realmente falando apenas sobre carreira ou dinheiro.
Estou falando sobre autonomia.
Sobre construir condições para depender cada vez menos da sorte e jamais precisar fazer da trapaça uma alternativa.
Sobre conhecer o próprio valor não pelo dinheiro que se possui, mas pela consciência daquilo que se sabe, daquilo que se consegue fazer e, sobretudo, daquilo que ainda se é capaz de aprender.
Talvez o caminho do estudo seja longo.
Talvez seja difícil.
Certamente não oferece garantias.
Mas, entre os três caminhos que apresento aos meus estudantes todos os anos, continuo acreditando que seja aquele em que vale mais a pena colocar os próprios passos.
Porque sorte nós podemos ter ou não.
Atalhos podem nos levar a lugares dos quais talvez não consigamos voltar.
Mas aquilo que construímos em nós mesmos por meio da educação amplia, de forma permanente, os caminhos que ainda podemos escolher.
Prof. M. Sc. Maycon Saviole da Costa
