Entrevista com José Carlos Diniz

Astronomia, CANF e Planetário Municipal de Nova Friburgo

Entrevistado: José Carlos Diniz — médico cardiologista, astrofotógrafo friburguense e cofundador do Clube de Astronomia de Nova Friburgo — CANF.

Entrevistadora: Prof.ª Tâmara Sabadine — professora geógrafa e coordenadora do Planetário Municipal de Nova Friburgo.

Participação e registro: Prof. Maycon Saviole da Costa — 3S – Saviole Soluções Sustentáveis.

Local: Observatório Giordano Bruno, Nova Friburgo – RJ.
Data: 27 de setembro de 2026.

sr diniz2

Prof.ª Tâmara Sabadine: Como nasceu sua relação com a Astronomia e com a criação do Clube de Astronomia de Nova Friburgo?

José Carlos Diniz: Minha relação com a Astronomia aconteceu nos anos 1980. Fui convidado para o aniversário da filha de um médico amigo e, em determinado momento, ele me levou até o terraço. Ali havia uma luneta. Ele me mostrou primeiro a Caixinha de Joias. Eu olhava para o céu e não conseguia imaginar onde estava aquilo, mas, quando olhei pelo telescópio, vi aquela coisa fantástica.

Depois ele me mostrou Ômega Centauri. Aquilo ficou na minha cabeça. Eu não tinha ideia de nada daquilo.

Costumo dizer, inclusive nas palestras que faço, que a primeira coisa para chegar à Astronomia — e talvez para chegar a qualquer conhecimento — é a curiosidade. Você fica curioso em relação a alguma coisa e vai buscar conhecimento. Depois que busca conhecimento e começa a aprender, vem a paixão.

Foi assim comigo.

Fiquei encantado e comecei a procurar conhecimento. Fui atrás de livros. Um dos primeiros foi um livro do Mourão. E um mundo novo se abriu para mim.

Passei a frequentar o Observatório Nacional, observar pelas lunetas e conhecer aquele universo. Sempre gostei muito de mecânica e de Física e, naquela época, também gostava muito de ficção científica. Então tudo aquilo parecia colocar-me em outro mundo.

Em uma dessas idas ao Observatório Nacional encontrei um grupo fazendo um curso de construção de telescópios. Perguntei onde poderia me inscrever, fiz o curso, trabalhei durante meses no meu primeiro espelho e construí um telescópio newtoniano.

Nessa mesma época eu havia adquirido um terreno em Nova Friburgo. Quando comecei a observar o céu daqui, encontrei um céu como eu nunca tinha visto. Levava o telescópio para lá e passava noites observando.

Comecei também a fazer fotografias. Eu já tinha relação com a fotografia desde jovem, quando cheguei a trabalhar como freelancer para jornal, então quis juntar as duas coisas: Astronomia e fotografia.

Com o tempo construí uma primeira cúpula. Ficou muito ruim esteticamente, porque eu ainda não conhecia direito a geometria necessária, mas funcionava e não entrava água! Depois adquiri equipamentos melhores, participei de grupos de astrofotografia, conheci pessoas que foram fundamentais na minha formação e passei a estudar e praticar cada vez mais.

Cheguei a ter fotografias reconhecidas e premiadas, inclusive em publicação especializada. Isso me estimulou bastante.

Mas, em determinado momento, pensei: não é possível guardar tudo isso só para mim.

Comecei então a participar de encontros de Astronomia e falar sobre astrofotografia. Eu mostrava como fazia, procurava simplificar as ideias e estimular outras pessoas a fotografar o céu.

Foi assim que me tornei conhecido nesse meio.

Em uma dessas ocasiões resolvi fazer uma palestra aqui em Nova Friburgo, na Livraria Arabesca. Falei sobre o Universo, formação e evolução das estrelas, supernovas e outros temas básicos de Astronomia.

O Reinaldo estava nessa palestra.

Quando terminou, ele veio falar comigo e disse algo como:

“Eu também me interesso por isso. Queria conversar.”

E começamos a conversar.

Nasceu ali uma grande amizade. Passamos a estudar juntos, ele ia à minha casa, mexíamos nos equipamentos, discutíamos Astronomia. Ele estava construindo telescópios e eu ajudava naquilo que podia. Nossa amizade se tornou tão próxima que fui padrinho de casamento dele.

Algum tempo depois, reunidos em minha casa, no Stucky, estavam Reinaldo, Hudson, Roberto Machado, Maria Cecília, eu e talvez mais alguém de quem agora não me recordo.

E pensamos:

“Por que não fundar um clube?”

Discutimos nomes e nasceu o Clube de Astronomia de Nova Friburgo — CANF.

No início não tínhamos sede. Éramos itinerantes. Reuníamo-nos em colégios, em diferentes espaços, depois passamos por outras instituições. Às vezes eram dez pessoas, às vezes menos, mas continuávamos nos encontrando, estudando e fazendo palestras.

Até que surgiu o Planetário.

E aquilo mudou nossa história.


Prof.ª Tâmara Sabadine: Como o senhor descreve a importância do professor Reinaldo para essa trajetória e para o Planetário Municipal de Nova Friburgo?

José Carlos Diniz: Quando apareceu o Planetário, nós pensamos: “Não seria bom fazer as palestras lá?”

E o Reinaldo, com aquele entusiasmo dele, praticamente disse:

“Nós vamos ficar aqui.”

Na época houve aceitação por parte da Prefeitura, ainda que sem uma estrutura institucional muito formal, e passamos a utilizar o Planetário. Todo mês tínhamos reunião e palestra. Começaram a chegar alunos, escolas e pessoas de outros lugares.

Quando o Reinaldo conseguiu ficar como responsável pelo Planetário, aquilo era exatamente o que ele queria.

Ele mergulhou completamente naquele espaço.

Começou a fazer maquetes, reunir materiais, conseguimos computadores antigos para simulações, ele conseguiu traje de astronauta para as crianças tirarem fotografias, eu levava minhas astrofotografias para exposições…

E o Planetário foi crescendo.

O Reinaldo foi o grande incentivador e o grande criador de toda aquela estrutura.

Ele transformava o pouco que tínhamos em alguma coisa capaz de despertar interesse.

Ao mesmo tempo, sofríamos muito porque não conseguíamos coisas básicas: vigilância, limpeza, manutenção de banheiros, uma estrutura mínima para um funcionamento adequado.

Havia vandalismo. A cúpula e outros elementos eram danificados repetidamente. Chegamos a procurar parcerias com empresas de Nova Friburgo para câmeras e vigilância, mas as soluções não permaneciam.

Apesar disso, milhares de crianças e estudantes passaram pelo Planetário ao longo daquele período, inclusive grupos vindos de cidades vizinhas. Vinham para assistir às atividades, observar o céu, conhecer a Lua e participar das experiências.

Eu não conseguia estar presente o tempo todo porque trabalhava no Rio de Janeiro. Fazia aquilo que podia, especialmente palestras e exposições. Mas o Reinaldo estava ali.

Ele era o cabeça daquele trabalho.

Nós realizamos encontros, trouxemos pesquisadores e professores, fizemos palestras e observações. Houve um período em que parecia que estávamos realmente crescendo.

Mas sempre faltava suporte básico.

Com o tempo, o Reinaldo acabou ficando cada vez mais sozinho. Depois chegaram pessoas como o Alisson e outros que ajudaram, mas o clube e o Planetário resistiam muito por conta própria, praticamente por amor à arte.

Não conseguimos, naquele momento, criar a massa crítica necessária para estruturar estatutos e dar ao clube uma organização institucional mais forte. Eu dizia: “Para que vamos organizar tudo isso se não temos sequer uma base?”

E assim fomos aos trancos e barrancos.

Mas a semente permaneceu plantada.

Com a perda do Reinaldo, veio uma crise muito grande.

Agora vejo surgir novamente pessoas capazes de assumir essa responsabilidade. Costumo brincar dizendo que surgiram pessoas capazes de “segurar o andor e levar o santo”.

É um momento de reorganização.

A semente está lá.

Está crescendo.

Daqui a pouco põe a cabeça para fora e vira árvore.

Eu acho que nós estamos justamente nesse momento de virada.

Agora existe a possibilidade de reconstruir uma estrutura real, com futuro, com apoio público, segurança, limpeza, água, banheiro e organização.

É preciso recolher os pedaços daquilo que foi feito, que hoje estão espalhados pela memória e pelas pessoas do clube, e colocar tudo novamente para frente.

O que tenho a oferecer hoje é minha experiência, minhas palestras e minhas exposições de fotografia.

Eu talvez tenha dado um dos primeiros pontapés nessa bola.

Mas a bola não está mais comigo.

E isso é bom.

Ela precisa continuar seguindo.


Prof.ª Tâmara Sabadine: Na sua visão, por que um planetário ativo é tão importante para a vida científica, educativa e cultural de um município?

José Carlos Diniz: Eu costumo dizer que a Astronomia é a mãe de todas as Ciências.

Os povos antigos olhavam para o céu, maravilhavam-se, imaginavam coisas e também tinham medo daquilo que não conheciam. O raio, o trovão, os fenômenos da natureza…

Na Astronomia estão envolvidas a Física, a Química, a Biologia. As Ciências básicas estão ali.

Quando estudamos povos ancestrais, encontramos também sua relação com a Astronomia. Encontramos observações do céu, registros de estrelas, cometas e outros fenômenos muito antigos.

Então a Astronomia tem uma enorme capacidade de despertar o interesse pelo conhecimento.

E aí entra o Planetário.

O Planetário é uma maneira de divulgar ciência, esclarecer e mostrar as coisas como são.

Hoje temos uma juventude muito ligada às telas. Tudo é muito rápido. Uma informação aparece e muitas vezes é imediatamente tomada como verdadeira. Falta tempo para compreender, ler, comparar e desenvolver pensamento crítico.

Quem não sabe o que está procurando muitas vezes também não consegue avaliar aquilo que encontrou.

O Planetário oferece a possibilidade de formar crianças e jovens mostrando que existe um outro lado: o lado da ciência, da investigação e da compreensão de como as coisas são.

O atrativo pode ser o céu.

Pode ser um fenômeno.

Pode ser olhar através de um telescópio.

Pode ser assistir a uma palestra.

Pode ser observar uma fotografia e ter alguém explicando o que aquela imagem representa.

Tudo começa despertando a curiosidade.

E, da curiosidade, vem a busca pelo conhecimento.

Por isso, considero que o Planetário é um lugar onde a pessoa pode aprender a buscar conhecimento.

Pela curiosidade e pela atração pelo desconhecido, ela começa também a aprender a raciocinar.


Prof.ª Tâmara Sabadine: De que maneira o funcionamento regular do Planetário fortalece clubes de Ciências e Astronomia, como o CANF, e estimula o surgimento de novos grupos?

José Carlos Diniz: Primeiro é importante entender a diferença entre planetário e observatório.

Observatório é um lugar onde existem instrumentos para observar o céu em boas condições.

Planetário não é isso.

O Planetário utiliza um sistema de projeção do céu, mas, principalmente, pode funcionar como um núcleo onde você junta pessoas e junta conhecimento.

Sua função não é necessariamente criar outros clubes. Ele pode fazer isso, claro. Mas a essência é centralizar e difundir conhecimento.

Eu gosto de pensar que as sementes saem dali e são espalhadas pelo vento.

Onde irão brotar?

Não sabemos.

Mas é dali que pode partir alguma coisa.

Num observatório, muitas vezes você vai observar aquilo que já conhece para conhecer melhor.

No Planetário, muitas vezes você entra justamente para descobrir aquilo que ainda não sabe.

Você olha uma estrela e aprende por que ela apresenta determinada cor. Aprende sobre distância, medida, tempo e espaço. Começa a se colocar em outra posição diante do Universo.

O Universo, pelo seu gigantismo, pode nos sufocar e nos limitar, mas nós conseguimos abarcá-lo com o pensamento.

Por isso o Planetário é um ponto de inflexão.

É um lugar de curiosidade.

De busca de conhecimento.

De difusão do conhecimento.

As sementes que saem dali podem germinar ou não.

Mas, se algumas germinarem, já valeu a pena.

E elas irão se espalhar.

Naturalmente isso também fortalece o clube local. Um Planetário ativo oferece um ponto de encontro, favorece observações, palestras, intercâmbio e pode até estimular outras atividades, como o astroturismo.

Existem municípios que passaram a valorizar a qualidade do céu, controlar melhor a poluição luminosa e utilizar isso também como patrimônio científico e turístico.

É utilizar algo que já existe, mas aprender a olhar de outra maneira.

Às vezes há um eclipse sobre nossas cabeças e a pessoa prefere assistir pela televisão ou pelo celular.

Mas olhar para cima e ver aquilo acontecendo é outra experiência.

Precisamos recuperar essa experiência direta com o céu.


Prof.ª Tâmara Sabadine: Quais atividades e experiências oferecidas por um Planetário mais despertam o interesse de crianças, jovens, educadores e famílias pela Ciência?

José Carlos Diniz: Muitas crianças chegam porque a escola organizou uma visita.

Às vezes eu me pergunto o que terá mais impacto nelas: simplesmente perceber a beleza do Universo ou compreender aquilo que estão vendo.

Acho que as duas coisas acontecem juntas.

Elas entram, veem o céu projetado e começam a perceber aquele Universo.

Depois saem e olham para o céu verdadeiro de outra forma.

Para mim, uma das coisas que mais chama atenção é ter telescópios do lado de fora.

Mostrar a Lua.

Mostrar aglomerados.

Mostrar nebulosas.

Olhar diretamente pelo telescópio cria muito impacto nas crianças.

Mas também há as exposições de fotografias, palestras explicando o que são cometas, como funciona o Sistema Solar, como ocorre a evolução das estrelas, qual é o verdadeiro tamanho desses astros…

Tudo isso desperta curiosidade.

Portanto, não acho que exista apenas uma atividade.

É o conjunto.

Pode ser uma experiência visual.

Pode ser o telescópio.

Pode ser a cúpula do Planetário projetando um céu.

Pode ser uma exposição.

Uma coisa chama atenção para a outra.

A criança vê alguma coisa dentro do Planetário e depois sai para procurá-la no telescópio.

Quando isso acontece, aquele conhecimento se fixa de outra maneira.

É esse conjunto de experiências que o Planetário pode oferecer:

conhecimento e curiosidade.


Prof.ª Tâmara Sabadine: Que mensagem o senhor deixaria para gestores públicos e para a comunidade sobre a importância de manter o Planetário vivo, aberto e em diálogo com a cidade?

José Carlos Diniz: Eu acho que o poder público muitas vezes fica preso àquilo que oferece retorno imediato.

Mas educação não funciona dessa maneira.

É necessário compreender que o Planetário é um centro de educação e de formação.

E formação é necessária.

Não basta cumprir um rito: passar pela escola, fazer provas, receber alguma informação.

É preciso adquirir conhecimento.

E ali existe uma oportunidade extraordinária de oferecer informação e transformar informação em conhecimento.

Não estamos falando apenas de Matemática, Física, Química ou Biologia.

Estamos falando de formação.

Um povo que tem educação, informação e conhecimento é muito mais capaz de gerir os próprios destinos.

Hoje vemos muitas pessoas entorpecidas pela cultura das telas, pela informação rápida e passageira.

Nada se aprofunda.

Muitas vezes a pessoa sequer aprende como aprofundar aquilo que encontrou.

O Planetário pode ser um desses lugares onde esse desenvolvimento acontece.

Mas não basta simplesmente levar uma criança ao Planetário uma vez.

É preciso criar condições para que ela continue se desenvolvendo depois.

Senão aquela informação pode se perder.

Existe ainda outra possibilidade importante: o turismo científico e o astroturismo.

Quando um município valoriza seu céu, sua ciência e suas condições naturais, isso também pode atrair visitantes, inclusive de outras regiões.

Nova Friburgo possui condições para desenvolver muito mais essa vocação.

Existe ainda uma questão pela qual sempre me preocupei: a poluição luminosa.

Quando eu observava no Stucky, isso me incomodava profundamente. Havia iluminação sendo lançada para todos os lados.

Luz deve iluminar aquilo que interessa.

Iluminar o chão, a rua, o espaço que precisa ser iluminado.

Jogar luz para o céu representa desperdício de energia e também destrói nossa possibilidade de observar as estrelas.

Cheguei a participar de discussões em Nova Friburgo defendendo luminárias que direcionassem a luz para baixo, e não para cima.

Porque existe uma ideia que considero muito importante:

“O céu é uma propriedade da humanidade.”

Existem pessoas que praticamente nunca veem estrelas por causa da poluição luminosa.

Isso é uma perda.

Nós temos em Nova Friburgo condições para transformá-la em um polo astronômico adequado.

Temos regiões de montanha onde um observatório pode funcionar longe da iluminação excessiva.

E volto à diferença:

o Planetário é um lugar para tomar conhecimento; o Observatório é um lugar para desenvolver o conhecimento.

Podemos ter as duas coisas.

O poder público não pode olhar apenas para o resultado imediato e dizer: “Vieram duas mil crianças, que beleza.”

É preciso enxergar também as sementinhas que foram plantadas e espalhadas por aí.

Porque educação não é apenas oferecer informação.

É valorizar conhecimento.

É criar condições para que essas sementes cresçam.


Entrevista realizada em 27 de setembro de 2026, no Observatório Giordano Bruno, em Nova Friburgo-RJ, como parte dos registros produzidos para o Guia Municípios em Órbita — Modelo Planetário Vivo, desenvolvido pela 3S – Saviole Soluções Sustentáveis.