Quando a curiosidade vira conhecimento

No dia 27 de setembro de 2026, a 3S – Saviole Soluções Sustentáveis esteve no Observatório Giordano Bruno, em Mury – Nova Friburgo, para uma conversa especial com José Carlos Diniz, médico cardiologista, astrofotógrafo friburguense e um dos fundadores do Clube de Astronomia de Nova Friburgo — CANF.

A entrevista, conduzida por Prof.ª Tâmara Sabadine e Prof. Maycon Saviole da Costa, integra o trabalho de pesquisa, memória e documentação desenvolvido para o Guia Municípios em Órbita — Modelo Planetário Vivo, atualmente em fase de finalização.

Uma conversa com José Carlos Diniz sobre o CANF, Reinaldo e o futuro do Planetário de Nova Friburgo

sr diniz em seu planetário

Mais do que registrar datas, nomes e acontecimentos, queríamos ouvir quem ajudou a construir essa história.

E a conversa começou justamente onde tantas histórias científicas começam: na curiosidade.

Diniz conta que sua relação com a Astronomia nasceu nos anos 1980, quando, ao olhar por uma luneta pela primeira vez, encontrou no céu aquilo que até então desconhecia. Vieram os livros, as visitas ao Observatório Nacional, a construção de telescópios, a fotografia e, posteriormente, a astrofotografia.

De toda essa trajetória, ele sintetiza uma ideia que atravessa também a concepção do Planetário Vivo:

“A primeira coisa é a curiosidade. Você fica curioso, vai buscar o conhecimento e, depois que aprende, vem a paixão.”

Foi justamente o desejo de não guardar esse conhecimento apenas para si que aproximou Diniz de outras pessoas interessadas em Astronomia.

Em uma palestra realizada em Nova Friburgo, conheceu o professor Reinaldo Ivanicska.

Vieram as conversas, os estudos, os telescópios, a amizade e, algum tempo depois, a decisão de criar um clube.

Nascia o Clube de Astronomia de Nova Friburgo — CANF.

O clube passou por diferentes espaços até encontrar no Planetário Municipal um lugar capaz de reunir pessoas, palestras, escolas, observações e experiências.

Na lembrança de Diniz, Reinaldo foi muito mais do que um responsável pelo equipamento:

“O Reinaldo foi o grande incentivador e o grande criador de toda aquela estrutura.”

Com poucos recursos, foram surgindo maquetes, computadores, exposições, experiências para crianças, palestras, telescópios e atividades educativas.

Ao mesmo tempo, a história também revela uma lição importante.

Um espaço científico não pode depender indefinidamente da dedicação extraordinária de uma única pessoa.

Sem segurança, limpeza, manutenção, estrutura institucional e continuidade, até as iniciativas mais apaixonadas tornam-se frágeis.

Depois da perda de Reinaldo, Planetário e CANF atravessaram um período difícil.

Mas Diniz usa uma imagem especialmente bonita para falar do momento atual:

“A semente está lá. Está crescendo. Daqui a pouco põe a cabeça para fora e vira árvore.”

É justamente essa ideia de continuidade que inspira o trabalho atualmente desenvolvido em torno do Planetário Municipal de Nova Friburgo.

Planetário como lugar de encontro

Durante a entrevista, Diniz faz uma distinção simples e poderosa entre Planetário e Observatório.

O Observatório é lugar de observar, medir e aprofundar conhecimentos sobre o céu.

O Planetário, por sua vez, pode funcionar como um espaço de descoberta e aproximação:

“O Planetário é um lugar de curiosidade, de buscar conhecimento e de difundir conhecimento.”

É um lugar onde uma criança pode conhecer uma estrela antes de vê-la no céu.

Onde uma palestra pode conduzir ao telescópio.

Onde uma fotografia pode provocar uma pergunta.

Onde uma pergunta pode conduzir a um livro.

E onde uma experiência aparentemente pequena pode ser o início de uma trajetória científica inteira.

Nesse sentido, sua fala dialoga profundamente com o Modelo Planetário Vivo proposto no Guia.

Um planetário não é vivo apenas porque possui cúpula, projetor ou equipamentos.

Ele se torna vivo quando reúne pessoas, escolas, clubes, professores, pesquisadores, astrônomos amadores e comunidade; quando gera perguntas; quando estimula novas experiências; e quando aquilo que acontece dentro de suas paredes continua produzindo efeitos depois que o visitante vai embora.

Diniz resume isso utilizando novamente a metáfora das sementes:

“As sementes que saem dali podem germinar ou não. Mas, se algumas germinarem, já valeu a pena.”

Ver o céu de verdade

Entre projeções, palestras e exposições, ele também destaca a força da experiência direta.

Olhar a Lua por um telescópio.

Reconhecer um aglomerado.

Observar uma nebulosa.

Ver no céu verdadeiro aquilo que antes apareceu na cúpula.

Para Diniz, essas diferentes experiências não competem entre si.

Elas se completam.

Uma conduz à outra.

E é justamente esse conjunto que permite transformar curiosidade em conhecimento.

A mesma preocupação aparece quando fala sobre poluição luminosa e sobre a necessidade de Nova Friburgo preservar melhor as condições naturais que ainda possui para observação astronômica.

Em uma das frases mais marcantes da entrevista, afirma:

“O céu é uma propriedade da humanidade.”

Preservá-lo também significa preservar a possibilidade de futuras gerações olharem para cima e ainda encontrarem estrelas.

Um registro para o Guia — e para a memória

A entrevista com José Carlos Diniz fará parte do Guia Municípios em Órbita — Modelo Planetário Vivo, publicação desenvolvida pela 3S a partir da experiência de Nova Friburgo.

No Guia, apenas alguns trechos poderão ser apresentados.

Por isso, decidimos também preservar e disponibilizar a entrevista em versão ampliada, permitindo que sua narrativa permaneça como registro documental da história do CANF e do Planetário Municipal de Nova Friburgo.

Há histórias que ajudam a explicar como chegamos até aqui.

E há histórias que também ajudam a decidir para onde queremos ir.

A de Diniz, Reinaldo e tantas pessoas que mantiveram a Astronomia viva em Nova Friburgo pertence às duas categorias.

Talvez o maior compromisso desta nova etapa seja justamente esse:

não começar do zero, mas reconhecer as sementes já plantadas, cuidar delas e criar condições para que finalmente possam crescer.


Entrevista: José Carlos Diniz
Entrevistadores: Prof.ª Tâmara Sabadine e Prof. Maycon Saviole da Costa
Local: Observatório Giordano Bruno — Nova Friburgo/RJ
Data: 27 de setembro de 2026

Projeto: Municípios em Órbita — Modelo Planetário Vivo
3S – Saviole Soluções Sustentáveis

Leia aqui a entrevista completa com José Carlos Diniz

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