Nunca teve graça
Bullying, memória e uma Educação Ávida à Vida
Maycon Saviole da Costa

Durante muito tempo, certas formas de violência foram tratadas como se fizessem parte naturalmente da infância e da adolescência. Apelidos, humilhações, exclusões, empurrões, piadas sobre o corpo, sobre a roupa, sobre a origem social ou sobre qualquer característica que tornasse alguém diferente eram frequentemente vistos como brincadeiras.
Hoje chamamos muitas dessas práticas pelo nome que merecem: bullying.
E sempre que ouço alguém dizer que antigamente “não existia essa frescura”, penso imediatamente em minha própria infância.
Eu era uma criança gordinha. Também vinha de uma família com menos recursos que muitos dos colegas e, não raramente, utilizava roupas maiores e já usadas que recebia de meus primos. Para uma criança, essas diferenças aparentemente banais podiam se transformar rapidamente em marcadores sociais.
E se transformaram.
“Rolha de poço.”
“Bola sete.”
“Sandalinha.”
“Mazzaropi.”
Foram alguns entre muitos apelidos que atravessaram minha infância e adolescência.
Hoje consigo olhar para trás com a maturidade de quem já passou dos quarenta anos e compreender que aquelas experiências fizeram parte da construção do indivíduo que me tornei.
Mas é importante fazer uma distinção:
ter feito parte de minha formação não significa ter sido positivo para minha formação.
Sobreviver a algo não transforma esse algo em necessário.
Superar uma violência não justifica a violência.
Talvez essa seja uma das maiores confusões quando adultos romantizam determinadas experiências do passado.
“Eu passei por isso e estou aqui.”
Sim.
Mas quantas inseguranças permaneceram?
Quantas oportunidades foram abandonadas?
Quantas vezes deixamos de tentar alguma coisa porque alguém nos convenceu de que éramos incapazes?
Quantas crianças aprenderam a rir de si mesmas antes que os outros rissem delas?
Quantas começaram a ocupar menos espaço para não serem percebidas?
Não sabemos.
E justamente por isso é perigoso transformar sofrimento em nostalgia.
O que chamávamos de brincadeira
A ciência ajuda a estabelecer uma diferença importante entre conflitos comuns da convivência e bullying.
A definição clássica envolve comportamentos agressivos intencionais, repetidos e associados a algum desequilíbrio de poder entre quem agride e quem é agredido. A legislação brasileira segue essa compreensão e inclui explicitamente insultos, apelidos pejorativos, humilhação, discriminação, exclusão social, agressões físicas e formas de violência psicológica e virtual.
Portanto, nem toda brincadeira entre crianças é bullying.
Nem toda discussão é bullying.
Nem todo apelido necessariamente é bullying.
A questão está na relação estabelecida.
Quando apenas um lado se diverte, talvez já não seja uma brincadeira.
Quando alguém pede para parar e os outros continuam, não é brincadeira.
Quando existe constrangimento, medo, humilhação ou exclusão sistemática, não é brincadeira.
E quando uma pessoa precisa rir junto para esconder que está sofrendo, certamente alguma coisa está errada.
Eu sei disso porque já ri de apelidos dados a mim.
Não porque fossem engraçados.
Mas porque às vezes rir junto era uma maneira de diminuir o poder que aquilo parecia ter sobre mim.
Nunca teve graça
Existe uma espécie de revisionismo afetivo quando algumas pessoas falam sobre a escola do passado.
“Na minha época todo mundo tinha apelido.”
“Chamavam o gordo de gordo.”
“O magro era vareta.”
“O alto era girafa.”
“O baixo era tampinha.”
“E ninguém morreu por causa disso.”
Essa narrativa costuma concluir que as novas gerações seriam frágeis demais.
Mas há um problema fundamental nessa interpretação:
nós raramente sabemos quanto aquilo custou emocionalmente às pessoas que estavam ao nosso lado.
O fato de não conhecermos suas cicatrizes não significa que elas não existiram.
A UNESCO considera a violência escolar, incluindo o bullying, uma violação do direito de crianças e adolescentes à educação, à saúde e ao bem-estar. Dados internacionais mostram que aproximadamente um em cada três estudantes relata ter sofrido bullying por colegas na escola, e a aparência física aparece entre as razões mais frequentemente mencionadas pelas vítimas.
Portanto, não estamos falando de uma preocupação exagerada da sociedade contemporânea.
Estamos falando de um fenômeno antigo que finalmente aprendemos a enxergar melhor.
Nunca teve graça.
Nós apenas não tínhamos a mesma linguagem para falar sobre ele.
Algumas frases duram décadas
Há uma experiência de minha infância que talvez explique muito de minha postura como professor.
A violência não veio de um colega.
Veio de um adulto.
De um professor.
Um professor de Educação Física que, entre outras atitudes, manifestava claramente uma postura gordofóbica.
Eu tinha aproximadamente doze anos e estava tentando aprender a tocar flauta doce na banda da escola.
Em determinado momento ele me disse:
“Dentre os piores, você é o melhor em ser ruim.”
Pode parecer apenas uma frase.
Talvez para quem a pronunciou tenha sido apenas mais uma frase entre milhares ditas ao longo de uma carreira.
Para mim não foi.
Ali, de alguma maneira, enterrou-se parte de minha coragem para experimentar a música.
Não me tornei músico.
Praticamente deixei de tentar.
Não afirmo que uma única frase determinou tudo aquilo que viria depois. A construção de nossas escolhas é muito mais complexa.
Mas algumas palavras encontram uma criança exatamente no momento em que ela ainda está decidindo aquilo que acredita ser capaz de fazer.
E palavras pronunciadas por adultos que representam autoridade podem adquirir um peso extraordinário.
Do ponto de vista técnico, nem toda humilhação praticada por um professor deve ser classificada automaticamente como bullying no sentido estrito utilizado em alguns estudos sobre violência entre pares. Entretanto, ela integra o problema mais amplo da violência escolar e do constrangimento psicológico. A própria Lei brasileira nº 13.185/2015 prevê medidas contra práticas recorrentes de intimidação e constrangimento cometidas não somente por estudantes, mas também por professores e outros profissionais da comunidade escolar.
Essa talvez seja uma reflexão especialmente necessária para nós, professores:
não sabemos por quanto tempo uma criança carregará aquilo que dizemos a ela.
Depois vieram os “populares”
No Ensino Médio, a dinâmica assumiu outras formas.
Havia grupos.
Os populares.
Os que determinavam, informalmente, aquilo que era aceitável, interessante, bonito ou ridículo.
Adolescentes disputando reconhecimento dentro do próprio grupo e frequentemente utilizando alguém considerado mais vulnerável como matéria-prima para conquistar risadas.
É um mecanismo social relativamente simples:
para demonstrar pertencimento, alguém é transformado em estrangeiro.
Para alguém ocupar o centro, outro precisa ser empurrado para a margem.
Para mostrar força, escolhe-se quem possui menos condições de responder.
A crueldade pode, assim, ganhar uma plateia.
E a plateia é parte importante do fenômeno.
Não existe apenas quem agride e quem sofre.
Existem aqueles que riem.
Aqueles que filmam.
Aqueles que compartilham.
Aqueles que silenciam.
E também aqueles que decidem intervir.
Essa última possibilidade sempre me interessou particularmente depois que me tornei professor.
Quando passei para o outro lado da sala
Tornar-me professor mudou meu lugar físico dentro da escola.
Passei da carteira para a frente da sala.
Mas algumas memórias continuaram sentadas comigo.
Talvez exatamente por isso tenha desenvolvido uma sensibilidade particular para perceber determinados comportamentos.
O aluno que subitamente fica quieto.
A menina que começa a sentar sozinha.
O adolescente que ri de uma ofensa dirigida a ele, mas cujo olhar conta outra história.
O estudante que falta cada vez mais.
Aquele que evita Educação Física.
Aquele que não quer apresentar trabalhos.
Aquele que gostaria desesperadamente de pertencer a algum grupo.
Trabalho hoje em diferentes realidades escolares e uma coisa tornou-se evidente para mim:
o bullying não desapareceu.
Ele mudou.
Em alguns aspectos, tornou-se ainda mais complexo.
O pátio agora cabe dentro do celular
Na minha infância, ao menos teoricamente, o portão da escola delimitava uma parte daquela experiência.
Quando voltávamos para casa, existia alguma possibilidade de afastamento.
Hoje isso pode não acontecer.
O conflito iniciado às dez horas da manhã pode acompanhar um adolescente durante a tarde, atravessar a noite e chegar até seu quarto pela tela de um telefone.
A humilhação pode ser registrada.
Editada.
Transformada em meme.
Compartilhada.
Comentada.
Repassada para pessoas que sequer estavam presentes.
O cyberbullying modifica dramaticamente a escala da violência porque a audiência potencial cresce e as fronteiras físicas da escola praticamente desaparecem. A UNESCO vem alertando que os ambientes digitais ampliaram essas formas de agressão e que seus impactos podem alcançar segurança, saúde física e mental e desempenho educacional.
No Brasil, essa transformação também produziu mudanças jurídicas importantes. Desde 2015 existe uma política nacional específica de combate à intimidação sistemática, e a Lei nº 14.811, de 12 de janeiro de 2024, inseriu no Código Penal brasileiro a intimidação sistemática e estabeleceu tratamento específico para o cyberbullying.
Mas nenhuma lei, isoladamente, será suficiente.
Porque o problema nasce nas relações.
E é nas relações que precisamos também enfrentá-lo.
Cicatrizes invisíveis existem
Talvez uma das razões pelas quais o bullying tenha sido historicamente banalizado seja justamente a invisibilidade de grande parte de suas consequências.
Um braço quebrado aparece.
Um hematoma aparece.
Uma autoestima destruída nem sempre aparece.
Uma revisão sistemática publicada em 2022 encontrou associação entre envolvimento com bullying e pior qualidade de vida relacionada à saúde entre adolescentes, incluindo prejuízos em dimensões psicológicas e sociais e redução do bem-estar.
É preciso cuidado para não transformar essa relação em determinismo.
Nem toda criança vítima de bullying desenvolverá um transtorno psicológico.
Nem toda experiência negativa permanecerá pela vida inteira.
Somos capazes de reconstruir significados, criar estratégias, encontrar apoio e superar muitas experiências.
Eu sou prova disso.
Mas novamente:
superação não transforma violência em método educativo.
Não precisamos ferir crianças para torná-las fortes.
Precisamos ajudá-las a construir recursos internos, vínculos, confiança, autonomia e capacidade de enfrentar adversidades sem que nós mesmos sejamos os produtores desnecessários dessas adversidades.
Vida de Mazá
Em algum momento resolvi também ressignificar parte dessa história.
“Mazzaropi” havia sido um dos apelidos predominantes de minha adolescência.
Anos depois, quando criei um canal no YouTube para conversar com jovens sobre assuntos que atravessavam suas vidas, incluindo bullying, escolhi um nome:
Mazá.
Aquilo que antes servia para tentar me diminuir passou a ser apropriado por mim.
“Mazá” já não significava exatamente aquilo que outros haviam decidido sobre mim.
Passava a representar aquilo que eu decidia fazer com minha própria história.
Isso é ressignificação.
É superação.
Mas gosto novamente de fazer a ressalva:
não agradeço ao bullying por ter produzido isso.
Agradeço às possibilidades humanas que nos permitem reconstruir aquilo que fizeram conosco.
Existe uma diferença enorme.
Uma Educação Ávida à Vida precisa enxergar quem está diante dela
É nesse ponto que minha experiência pessoal encontra a proposta da Educação Ávida à Vida.
Uma educação inspirada pela vida não pode considerar suficiente transmitir conteúdos enquanto alguém está sendo destruído silenciosamente na carteira ao lado.
Aprendizagem não acontece apenas dentro do cérebro.
Ela acontece em um organismo inteiro.
Em alguém que possui corpo, emoções, história, vínculos, medos, expectativas e necessidade de pertencimento.
A autopoiese nos ajuda a compreender o ser vivo não como recipiente passivo, mas como sistema que produz e reorganiza continuamente a própria existência em interação com o meio.
A escola é parte desse meio.
E aquilo que acontece dentro dela participa da construção desse sujeito.
Por isso uma Educação Ávida à Vida precisa perguntar não somente:
“O aluno aprendeu o conteúdo?”
Mas também:
“Que ambiente estamos produzindo para que ele possa aprender?”
Ele se sente pertencente?
Pode errar sem ser humilhado?
Pode experimentar algo novo?
Pode ser gordo, magro, alto, baixo, negro, branco, pobre, rico, tímido, expansivo, habilidoso ou desajeitado sem que alguma dessas características seja transformada em autorização para violentá-lo?
Pode existir naquele espaço sem precisar pedir desculpas por ser quem é?
Isso também é educação.
Talvez seja uma das suas dimensões mais profundas.
O papel do professor
Hoje, como professor, tenho a oportunidade que muitos adultos de minha infância talvez não tenham percebido que possuíam.
Posso interromper uma piada.
Posso perceber uma exclusão.
Posso conversar reservadamente com alguém.
Posso não rir junto.
Posso criar oportunidades para que estudantes diferentes trabalhem juntos.
Posso demonstrar que errar não diminui ninguém.
Posso tomar cuidado com minhas próprias palavras.
Posso pedir desculpas quando erro.
Posso mostrar que autoridade não precisa ser exercida pela humilhação.
E, sobretudo, posso deixar claro algo simples:
ninguém precisa diminuir outra pessoa para crescer.
Isso não significa transformar a escola em um ambiente artificial no qual conflitos desaparecem.
Conflitos fazem parte da vida.
Frustrações fazem parte da vida.
Discordâncias fazem parte da vida.
O que não deve ser naturalizado é a crueldade.
Educar também significa aprender a conviver com diferenças sem transformá-las em hierarquias de dignidade.
Nunca foi frescura
Quando alguém disser novamente que “antigamente não existia bullying”, provavelmente pensarei nos apelidos.
Pensarei nas roupas largas que vinham dos meus primos.
Pensarei no garoto gordinho tentando encontrar seu lugar.
Pensarei na flauta doce.
Pensarei naquela frase dita quando eu tinha doze anos.
Pensarei no adolescente chamado Mazzaropi.
E pensarei também no professor que me tornei.
Talvez antigamente realmente não utilizássemos tanto a palavra bullying.
Mas existiam humilhação, medo, exclusão, violência e solidão.
A diferença é que hoje possuímos mais conhecimento para reconhecê-los.
Isso não é frescura.
Isso é aprendizado social.
E talvez amadurecer como sociedade seja exatamente isso:
olhar para práticas que antes considerávamos normais e ter coragem de concluir que nunca deveriam ter sido.
Não precisamos ensinar nossas crianças a suportar crueldades para prepará-las para a vida.
Precisamos construir uma sociedade na qual elas aprendam a enfrentar dificuldades sem perder a sensibilidade para o sofrimento do outro.
É nisso que acredito quando falo em uma Educação Ávida à Vida.
Uma educação que não pergunte apenas que profissional aquela criança será.
Mas que pessoa está se tornando.
E que pessoa nós a estamos ajudando a se tornar.
Porque algumas palavras atravessam décadas.
Algumas feridas não aparecem.
E uma criança que encontramos hoje poderá lembrar de nós quarenta anos depois.
Cabe a cada educador escolher que tipo de lembrança deseja deixar.
Referências
BRASIL. Lei nº 13.185, de 6 de novembro de 2015. Institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying). Brasília, DF: Presidência da República, 2015.
BRASIL. Lei nº 14.811, de 12 de janeiro de 2024. Institui medidas de proteção à criança e ao adolescente contra a violência nos estabelecimentos educacionais ou similares e altera o Código Penal e outras legislações. Brasília, DF: Presidência da República, 2024.
DUBEY, Viney Prakash et al. Bullying and health related quality of life among adolescents: a systematic review. Children, Basel, v. 9, n. 6, p. 766, 2022. DOI: 10.3390/children9060766.
OLWEUS, Dan. Bullying at school: what we know and what we can do. Oxford: Blackwell, 1993.
UNESCO. Behind the numbers: ending school violence and bullying. Paris: UNESCO, 2019.
Maycon Saviole da Costa
Biólogo, educador e idealizador da Educação Ávida à Vida
— por uma Pedagogia da Autopoiese.
