SINUM 2026

SINUM 2026: estudantes protagonistas de sua própria aprendizagem

Há experiências escolares que terminam quando toca o sinal. Outras permanecem conosco por anos. Algumas, talvez, por toda a vida.

Durante três dias, acompanhei mais uma edição da SINUM — Simulação das Nações Unidas do Educandário Miosótis, em Nova Friburgo. Um projeto conduzido pelo geógrafo e professor Daniel Campos, com o acompanhamento da coordenadora pedagógica Márcia Lobosco, mas que possui uma característica que considero ainda mais significativa: são os próprios estudantes que assumem grande parte da responsabilidade por fazer a experiência acontecer.

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No ano passado, participei diretamente da simulação. Coube a mim interpretar Muammar Gaddafi, o que me colocou dentro daquela construção, como personagem e participante das discussões propostas. Foi uma experiência incrível, certamente inesquecível.

Neste ano, minha participação foi completamente diferente.

Não interpretei presidente, diplomata ou qualquer personagem histórico. Meu papel foi muito mais discreto: acompanhei como professor da escola, ajudando nos bastidores conforme as necessidades apareciam. Em alguns momentos fazendo sanduíches, em outros buscando ou entregando impressões, auxiliando aqui e ali para que tudo pudesse funcionar.

Curiosamente, foi justamente esse papel aparentemente secundário que me proporcionou uma outra experiência também interessantes e inesperada nesse projeto.

Pela primeira vez, pude observar com calma as nuances de cada etapa do projeto.

E observar de perto.

Quando os estudantes assumem a escola

Circulando entre os diferentes ambientes, pude acompanhar um pouco do que acontecia em cada sala.

E aquilo que encontrei foi uma escola extraordinariamente viva.

Vi adolescentes assumindo responsabilidades e incorporando papéis de adultos e vestidos como tal. Em uma sala estavam políticos e diplomatas; em outra, advogados, testemunhas e mesários. Havia secretários, jornalistas, delegados e tantas outras funções necessárias à construção daquele universo.

Por alguns momentos, era preciso lembrar que estávamos dentro de uma escola.

Os acontecimentos simulados partiam de fatos históricos reais, mas ganhavam novos desdobramentos por meio da pesquisa, da argumentação e, principalmente, da criatividade dos participantes.

Não eram estudantes simplesmente ouvindo alguém falar sobre política internacional, conflitos, legislação, história ou diplomacia.

Eles precisavam agir sobre esses conhecimentos.

Era necessário pesquisar para argumentar. Ouvir para responder. Interpretar documentos. Construir estratégias. Falar em público. Improvisar diante do inesperado. Defender posições que nem sempre correspondiam às próprias convicções. Trabalhar coletivamente. Resolver problemas. Negociar. Discordar. Convencer. Reconsiderar.

Em outras palavras, o conhecimento precisava deixar o papel para funcionar na vida — ainda que dentro de uma realidade temporariamente simulada.

E talvez seja justamente por isso que a experiência seja tão real.

O protagonismo estudantil não estava no discurso

Muito se fala atualmente em protagonismo estudantil.

A expressão aparece em documentos educacionais, projetos pedagógicos, formações e discursos sobre inovação. Mas existe uma diferença considerável entre afirmar que o estudante deve ser protagonista e efetivamente entregar-lhe responsabilidades suficientemente importantes para que ele possa sê-lo.

Na SINUM, pude observar esse protagonismo materializado.

A coordenação geral desta edição esteve nas mãos de Yumi e Murilo, estudantes da segunda série do Ensino Médio.

Isso, por si só, merece atenção.

Não estavam apenas executando tarefas previamente determinadas pelos adultos. Estavam assumindo responsabilidades, tomando decisões, orientando colegas e ajudando a conduzir uma experiência educacional complexa que envolvia estudantes, professores, espaços, materiais, horários, imprevistos e relações humanas.

Ao redor deles, muitos outros jovens assumiam suas próprias responsabilidades.

Lembro também do João, da terceira série, que no ano anterior havia exercido a função de delegado-geral e, nesta edição, assumiu outro desafio, destacando-se como defensor.

Essas mudanças de papéis são particularmente interessantes porque permitem experimentar diferentes lugares dentro de uma mesma construção coletiva.

Hoje alguém argumenta. Amanhã organiza.

Em determinado momento lidera. Em outro precisa ouvir.

Em uma edição pode acusar; na seguinte, talvez tenha de defender.

Isso é formação.

Edgar Dale, o RPG e uma lembrança da juventude

Enquanto observava tudo aquilo, inevitavelmente pensei em minha própria juventude.

Pensei no quanto eu teria gostado de participar de algo semelhante quando estudante.

Naquela época, uma das experiências que despertavam meu interesse eram os RPGs — Role-Playing Games, jogos de interpretação nos quais assumimos personagens, tomamos decisões, resolvemos problemas e construímos narrativas coletivamente.

Há algo pedagogicamente poderoso em assumir temporariamente outro lugar.

Quando precisamos pensar como determinado personagem pensaria, defender seus interesses, compreender seu contexto e reagir aos acontecimentos, deixamos de lidar apenas com informações abstratas.

Décadas depois, já como educador, conheceria trabalhos como o Cone da Experiência, apresentado por Edgar Dale, em 1946, que se tornou uma conhecida referência para pensar a diversidade das experiências envolvidas nos processos educacionais.

É importante fazer uma ressalva: as famosas porcentagens de retenção frequentemente apresentadas na internet — como se lembrássemos percentuais fixos daquilo que lemos, ouvimos, vemos ou fazemos — não pertencem originalmente ao trabalho de Edgar Dale e não devem ser tratadas como evidência científica de taxas universais de aprendizagem.

Mas a reflexão original de Dale continua interessante por outro motivo: as experiências educacionais podem variar de formas mais abstratas de representação até experiências mais diretas e concretas, e uma educação rica não precisa permanecer presa a uma única forma de interação com o conhecimento.

E foi justamente essa diversidade que enxerguei na SINUM.

Os estudantes leram, pesquisaram, escreveram, ouviram, falaram, interpretaram, argumentaram, representaram, decidiram, criaram e fizeram a ONU se materializar em Nova Friburgo-RJ.

Não se tratava de substituir a leitura ou a aula pelo fazer. Pelo contrário. Para fazer bem, era preciso estudar.

A diferença é que o conhecimento adquirido encontrava imediatamente um lugar onde precisava ser utilizado.

Quando encontrei a Educação Ávida à Vida acontecendo diante de mim

Talvez tenha sido essa a reflexão que mais me marcou durante esses três dias.

Há algum tempo venho teorizando sobre aquilo que denomino Educação Ávida à Vida e sobre uma perspectiva educacional inspirada na autopoiese: uma educação na qual aprender não seja apenas receber conteúdos previamente organizados, mas participar ativamente de ambientes capazes de produzir interações, desafios, reorganizações, autonomia, significados e novas possibilidades de aprendizagem.

Enquanto caminhava pelos corredores do Miosótis e entrava naquelas salas, tive uma percepção ao mesmo tempo simples e importante:

aquilo que venho procurando teorizar já existe.

Talvez não sistematizado dessa maneira.

Talvez não descrito pelos mesmos conceitos.

Talvez aqueles estudantes jamais tenham ouvido falar em autopoiese ou nos referenciais teóricos que utilizo para pensar a educação.

Mas estava ali.

Vivo.

Acontecendo.

Projetos como a SINUM mostram que muitas das transformações que buscamos para a educação não precisam necessariamente nascer primeiro nos artigos científicos para depois chegarem às escolas.

Às vezes ocorre justamente o contrário.

A escola cria.

Professores experimentam.

Estudantes transformam.

Uma prática funciona.

Uma comunidade escolar percebe seu valor.

E posteriormente cabe à pesquisa educacional observar essas experiências, compreendê-las, sistematizá-las e tentar explicar por que funcionam e o que podemos aprender com elas.

Nesse sentido, a SINUM me parece um excelente caso para pensar uma educação na qual o estudante deixa de ser apenas destinatário da ação pedagógica e passa a ser também um de seus produtores.

Desta vez, havia também um pai observando

Neste ano havia ainda uma dimensão muito particular nessa experiência.

Além do professor que circulava pelos bastidores, havia um pai observando.

Minha filha estava entre aqueles estudantes.

E vê-la tendo acesso a uma experiência como essa acrescentou outro significado àqueles três dias.

Foi impossível não pensar novamente no jovem que fui e imaginar o quanto teria sido interessante participar de algo semelhante naquela época.

Talvez por isso eu tenha acompanhado determinados momentos com uma satisfação que ultrapassava minha condição profissional.

Como educadores e como pais, desejamos que os jovens tenham acesso a oportunidades que ampliem seu mundo. Não apenas oportunidades de acumular informações, mas de descobrir capacidades que talvez nem soubessem possuir.

Um estudante pode descobrir ali que consegue falar em público.

Outro, que sabe liderar.

Outro percebe sua capacidade de argumentação.

Alguém descobre que escreve muito bem.

Outro aprende que consegue organizar pessoas.

Há quem perceba que precisa controlar melhor suas emoções diante de uma discordância.

E haverá aquele que simplesmente descobrirá um novo interesse que poderá acompanhá-lo pelo restante da vida.

Nenhuma prova convencional consegue antecipar completamente o que cada estudante aprenderá em uma experiência dessa natureza.

Três dias que podem durar décadas

A SINUM aconteceu durante três dias escolares.

No calendário, foram três dias.

Pedagogicamente, tenho dificuldade em acreditar que sua duração possa ser medida dessa maneira.

Conteúdos serão esquecidos. Datas poderão escapar da memória. Argumentos específicos talvez desapareçam. Daqui a alguns anos, provavelmente muitos participantes não conseguirão reconstruir exatamente tudo aquilo que aconteceu em cada sala.

Mas é muito provável que se lembrem de ter estado lá.

De terem sido diplomatas, jornalistas, advogados, políticos, testemunhas, delegados, secretários ou coordenadores.

Lembrarão de algum argumento brilhante, de uma situação inesperada, de uma discussão acalorada, de uma solução improvisada, de uma amizade fortalecida, de uma responsabilidade assumida ou daquele momento em que perceberam que eram capazes de fazer algo que até então nunca haviam feito.

É por isso que acredito que aqueles três dias podem permanecer por mais de três décadas na história pessoal de muitos deles.

A educação também é feita dessas memórias.

Aos professores que tornam possível entregar o protagonismo aos estudantes

Por tudo isso, este texto é também um reconhecimento.

Ao professor Daniel Campos, mentor da SINUM, à coordenadora pedagógica Márcia Lobosco, a diretoria da escola que cedeu o espaço, aos professores envolvidos, aos funcionários que colaboraram e, principalmente, aos estudantes que assumiram o desafio: meus parabéns.

Existe uma aparente contradição muito bonita em projetos assim.

Quanto melhor os educadores conseguem criar as condições para que os estudantes sejam protagonistas, menos os adultos parecem ocupar o centro da cena.

Mas isso não diminui o trabalho docente.

Ao contrário: revela sua grandeza.

Criar condições para que jovens assumam responsabilidades reais, permitir que experimentem autonomia e confiar que sejam capazes de construir algo relevante exige planejamento, trabalho, orientação e, sobretudo, confiança nos estudantes.

Talvez uma das maiores realizações de um professor aconteça justamente quando ele percebe que seus alunos conseguem caminhar sem que seja necessário conduzi-los o tempo inteiro pela mão.

Neste ano, meu papel na SINUM foi pequeno.

Fiz sanduíches.

Levei impressões.

Ajudei nos bastidores.

Observei.

E talvez justamente por isso tenha conseguido enxergar algo que, estando no centro da atividade no ano anterior, eu não havia percebido com a mesma intensidade.

Enquanto eu fazia coisas aparentemente secundárias, os estudantes faziam a escola acontecer.

E voltei para casa com uma convicção ainda maior sobre aquilo que venho tentando construir como educador e pesquisador:

uma educação Ávida à Vida não precisa ser inventada do zero.

Ela já pulsa em muitas escolas.

Está em projetos como a SINUM, em professores que ousam entregar responsabilidades aos jovens e, principalmente, em estudantes que, quando encontram espaço para agir, demonstram que são capazes de fazer muito mais do que simplesmente responder às perguntas que colocamos em uma prova.

Às vezes, nossa tarefa como educadores é também aprender a observá-los.

Porque enquanto acreditamos estar ensinando, podemos descobrir que a própria escola está nos ensinando o que a educação pode ser.

Maycon Saviole da Costa
Biólogo/Professor
Mestre no Ensino de Ciências

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