Por Maycon Saviole da Costa
Biólogo, especialista em Planejamento Urbano Ambiental e Mestre em Ensino de Ciências
3S – Saviole Soluções Sustentáveis
No dia 8 de agosto de 2026, estive em uma das áreas recentemente atingidas por incêndio na região do Caledônia, em Nova Friburgo (RJ). Mais do que observar uma paisagem queimada, a incursão permitiu reconhecer, em campo, diferentes dimensões de um incêndio ambiental: suas possíveis causas humanas, a relação entre degradação da vegetação e propagação do fogo, as perdas imediatas de biodiversidade, os riscos posteriores para o solo e para os recursos hídricos e, paradoxalmente, as possibilidades de transformar uma área impactada em espaço de pesquisa, recuperação e educação ambiental.
O que encontrei foi uma paisagem que ainda guardava as marcas muito recentes do fogo. Cinzas, vegetação carbonizada, restos de ninhos, pequenos animais mortos e uma colônia de abelhas nativas atingida pelas chamas materializavam algo que, visto à distância, muitas vezes é reduzido simplesmente à expressão “área queimada”.

Mas uma área queimada não representa apenas vegetação perdida. Representa habitats, organismos, interações ecológicas, solo, água e processos ecossistêmicos afetados simultaneamente.
O fogo e a degradação da paisagem
Durante a visita, moradores da região relataram, de maneira recorrente, que o incêndio teria começado a partir do manejo imprudente do fogo para queima de vegetação por um trabalhador que realizava serviço de jardinagem. Trata-se, entretanto, de relato de moradores, e não de determinação técnica ou oficial da causa do incêndio, que depende dos procedimentos competentes de investigação.
Independentemente da origem, algo chamou particularmente minha atenção durante a observação de campo: o comportamento do fogo parecia bastante diferente conforme as características da cobertura vegetal.
Nas áreas mais abertas e degradadas, com grande presença de vegetação herbácea seca, incluindo extensos agrupamentos de samambaias e, em determinados pontos, gramíneas exóticas como Urochloa spp., popularmente conhecidas como braquiárias, havia sinais de elevada propagação do fogo.

Essa observação é coerente com o conhecimento acumulado pela ecologia do fogo. Gramíneas invasoras podem produzir grande quantidade de biomassa fina e combustível seco, aumentando a continuidade horizontal do material combustível e favorecendo incêndios mais frequentes. Forma-se, em determinadas circunstâncias, um mecanismo de retroalimentação: a degradação favorece espécies adaptadas ou tolerantes ao fogo; essas espécies aumentam a disponibilidade de combustível; novos incêndios dificultam a regeneração da vegetação nativa e aprofundam a degradação.
É o chamado ciclo de retroalimentação entre gramíneas invasoras e fogo, descrito em diferentes ecossistemas.
Onde a Mata Atlântica ainda resiste
O contraste observado com os fragmentos florestais foi igualmente significativo.
Em diferentes pontos, o fogo encontrou maior dificuldade para avançar sobre áreas mais úmidas e estruturalmente mais conservadas de Mata Atlântica. Isso não significa, evidentemente, que a floresta esteja protegida contra incêndios. A Mata Atlântica não é um ecossistema imune ao fogo e incêndios suficientemente intensos, prolongados ou recorrentes podem penetrar nos fragmentos florestais e produzir impactos severos.
O que a observação mostrou foi outra coisa: a conservação da vegetação nativa também pode contribuir para aumentar a resistência da paisagem à propagação do fogo, especialmente pela manutenção de condições microclimáticas distintas daquelas encontradas em áreas abertas e degradadas.
Mesmo onde as chamas não avançaram profundamente, entretanto, as bordas dos fragmentos sofreram.
Foram observadas bromélias, espécies herbáceas e arbustivas nativas atingidas ou completamente queimadas. Essa interface entre áreas abertas e fragmentos naturais merece atenção especial, porque os efeitos de borda alteram umidade, temperatura, luminosidade e composição da vegetação, podendo tornar determinadas porções da floresta mais vulneráveis.

Assim, conservar e recuperar a Mata Atlântica não significa apenas preservar árvores. Significa reconstruir estrutura, umidade, diversidade e resiliência ecológica.
Quando os animais não conseguem fugir
Uma das dimensões mais difíceis de observar após um incêndio é aquela que raramente aparece nas imagens panorâmicas das queimadas.
Entre as áreas percorridas encontrei restos carbonizados de ninhos, uma colônia de abelhas nativas destruída pelo fogo e pequenos roedores mortos.

Nem todos os animais conseguem simplesmente “fugir do incêndio”.
Organismos com pequena capacidade de deslocamento, animais em ninhos e abrigos, filhotes, invertebrados e inúmeros organismos associados ao solo e à serapilheira podem sofrer mortalidade direta. Outros sobrevivem às chamas, mas encontram posteriormente um ambiente profundamente alterado, com menor disponibilidade de alimento, abrigo e locais de reprodução.
Também estavam ali os rastros daqueles que poderíamos chamar de heróis do incêndio: pessoas que enfrentaram as chamas para impedir que o fogo alcançasse proporções ainda maiores.
O combate ao incêndio termina quando as chamas são apagadas. A recuperação ambiental, porém, pode levar anos.
Depois das chamas, vem a chuva
Outro aspecto que despertou preocupação durante a visita foi a relação entre o incêndio, o solo e os recursos hídricos.
Por ser inverno e período de menor disponibilidade hídrica, observei pouca água escoando em um pequeno curso associado às formações rochosas da área. Essa condição torna ainda mais evidente a importância de acompanhar o comportamento hidrológico da região após o incêndio.
Sobre grande parte do terreno permanece uma espessa camada de cinzas.
Com o retorno das chuvas, especialmente em eventos de elevada intensidade, parte desse material poderá ser mobilizada superficialmente. A retirada da cobertura vegetal também deixa o solo mais exposto ao impacto direto das gotas de chuva e ao escoamento superficial, aumentando, dependendo das condições locais, a possibilidade de erosão e transporte de sedimentos.
As cinzas contêm elementos minerais anteriormente presentes na biomassa. Sua mobilização pode representar perda de nutrientes do sistema terrestre e transferência de nutrientes, sedimentos e matéria para os corpos hídricos situados a jusante.

Em determinadas condições, esse aporte pode modificar parâmetros como turbidez, pH, condutividade e disponibilidade de nutrientes na água e, quando há enriquecimento significativo por nutrientes, contribuir para processos de eutrofização.
Não significa afirmar que isso necessariamente ocorrerá no Caledônia. Significa reconhecer que existe uma hipótese ambiental relevante que merece acompanhamento.
Uma área recentemente queimada constitui, portanto, oportunidade importante para monitorar indicadores como qualidade da água, vazão, turbidez, nutrientes, cobertura do solo, erosão e regeneração da vegetação ao longo dos próximos meses.
Floresta também é água
A relação entre conservação da vegetação e recursos hídricos foi um dos temas centrais da incursão.
A vegetação nativa participa do ciclo hidrológico por diferentes mecanismos: interceptação da chuva, infiltração da água no solo, evapotranspiração, proteção contra erosão, manutenção da estrutura do solo e regulação dos fluxos superficiais e subterrâneos.
Em regiões montanhosas como Nova Friburgo, essa relação assume importância ainda maior.
Proteger os remanescentes florestais significa também proteger áreas de recarga, nascentes, córregos e a estabilidade hidrológica da paisagem.
Durante a atividade de campo, essa relação entre floresta, fogo e água também foi registrada em material audiovisual produzido pelo Visite Friburgo, buscando ampliar o debate público sobre a importância da conservação das áreas naturais para a manutenção da quantidade e da qualidade dos recursos hídricos locais.
Do campo para a sala de aula
A visita ao Caledônia não começou nem terminou no campo.
A ocorrência do incêndio foi transformada em tema de educação ambiental com mais de 60 estudantes das turmas 701 e 702, do 7º ano do Colégio Estadual Augusto Spinelli, em Nova Friburgo.
Em sala de aula, discutimos como a conservação da vegetação nativa está relacionada à manutenção dos habitats, à biodiversidade, ao ciclo da água e à regulação climática, bem como de que maneira incêndios e degradação ambiental podem interferir diretamente nesses processos.
Mas a pergunta proposta aos estudantes foi além dos conceitos ecológicos:
Como uma queimada no Caledônia pode afetar a minha vida?
Cada estudante foi convidado a escrever sobre essa relação e também a representá-la por meio de um desenho.

Essa mudança de perspectiva é fundamental para a educação ambiental. O incêndio deixa de ser compreendido como algo distante, ocorrido “lá na montanha”, e passa a ser percebido dentro de uma rede de relações que envolve água, temperatura, biodiversidade, paisagem, segurança, qualidade ambiental e o próprio cotidiano das pessoas que vivem na cidade.
Educação ambiental não deve apenas informar que a natureza precisa ser protegida. Precisa contribuir para que as pessoas compreendam por que sua própria existência está vinculada aos sistemas naturais que pretendemos conservar.
Uma área degradada também pode se transformar em território de aprendizagem
Apesar da dimensão dos impactos observados, saí da área com uma percepção que considero igualmente importante.
Há ali um extraordinário potencial para recuperação ambiental associada à pesquisa, ao monitoramento e à educação.
A área poderia receber ações planejadas de acompanhamento da regeneração natural, controle de espécies exóticas invasoras, avaliação da qualidade da água, monitoramento do solo, identificação das espécies que recolonizam o ambiente, acompanhamento da fauna, recuperação de áreas prioritárias e atividades de educação ambiental.
Estudantes poderiam acompanhar, ao longo dos anos, o retorno da vegetação.
Poderiam medir.
Fotografar.
Comparar.
Investigar.
Produzir conhecimento.
Uma área atingida pelo fogo não precisa se transformar apenas em memória de uma tragédia ambiental. Com responsabilidade técnica e respeitando-se as normas de proteção da unidade de conservação, ela pode tornar-se também um laboratório vivo de restauração ecológica e formação cidadã.
O que o Caledônia nos ensina
A paisagem que encontrei em 8 de agosto deixa uma mensagem bastante concreta.
Prevenir incêndios não consiste somente em combater o fogo quando ele começa.
É necessário reduzir práticas humanas de risco, fortalecer a prevenção e a fiscalização, conservar fragmentos florestais, recuperar áreas degradadas, controlar espécies invasoras quando tecnicamente indicado, monitorar recursos hídricos e aproximar a população dos ambientes naturais dos quais depende.
Sobretudo, precisamos compreender que degradação ambiental e vulnerabilidade ao fogo podem caminhar juntas.
Onde simplificamos a paisagem, substituímos comunidades vegetais diversas por formações homogêneas, acumulamos material combustível e fragmentamos a floresta, podemos criar condições que tornam o território progressivamente mais vulnerável.
Recuperar essas áreas é também uma estratégia de prevenção.

Foi impossível caminhar sobre as cinzas, encontrar ninhos queimados, observar bromélias mortas e pequenos animais carbonizados sem perceber a dimensão concreta daquilo que muitas vezes ensinamos apenas por meio de livros.
Mas também foi impossível olhar para os fragmentos que permaneceram verdes sem reconhecer a capacidade de resistência da vida.
Talvez esteja justamente aí uma das principais lições deixadas pelo incêndio:
a conservação não começa depois do desastre.
Ela precisa acontecer antes.
E, quando não conseguimos evitar a perda, resta-nos aprender com ela, investigar suas consequências e trabalhar para que a paisagem possa novamente sustentar água, biodiversidade e vida.
Referências
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DEBANO, L. F. The effect of fire on soil properties. In: HARVEY, A. E.; NEUENSCHWANDER, L. F. (eds.). Management and Productivity of Western-Montane Forest Soils. Ogden: USDA Forest Service, 1991.
NEARY, D. G.; RYAN, K. C.; DEBANO, L. F. (eds.). Wildland Fire in Ecosystems: Effects of Fire on Soils and Water. Ogden: USDA Forest Service, 2005.
SHIKLOMANOV, I. A.; RODDA, J. C. (eds.). World Water Resources at the Beginning of the Twenty-First Century. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.
3S – Saviole Soluções Sustentáveis
Conhecimento, educação e conservação transformando territórios.
