Vape não é modinha: é NICOTINA chegando às nossas crianças

Por Prof. M. Sc. Maycon Saviole da Costa

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Há algum tempo venho percebendo, como professor, nos ambientes externos aos recintos/recantos escolares, algo que me preocupa cada vez mais: a presença e banalização de cigarros eletrônicos, vapes e pods entre adolescentes e, em alguns casos, até entre pré-adolescentes.

O que chama atenção não é apenas o consumo. É a forma como esses produtos estão chegando aos jovens.

Pequenos, coloridos, tecnológicos, discretos e frequentemente associados a sabores de frutas (melancia, uva, morango, etc), sabores refrescantes (Menta), de doces e balas, os dispositivos eletrônicos para fumar foram muito além da aparência tradicional de um cigarro. A Organização Mundial da Saúde alerta que sabores, formatos compactos e estratégias de marketing contribuem para tornar produtos de nicotina mais atraentes para crianças e adolescentes. Em 2025, a própria OMS voltou a destacar que os sabores favorecem a experimentação, a iniciação e a manutenção do consumo de nicotina entre jovens.

Isso deveria nos incomodar.

Porque estamos falando de nicotina.

A nicotina é uma substância que causa dependência. E o cérebro do adolescente ainda está em desenvolvimento. A exposição à nicotina pode interferir em circuitos relacionados à atenção, aprendizagem, humor e controle dos impulsos. Não é uma questão de opinião, de geração ou de “frescura de adulto”: é uma questão biológica.

  1. O problema brasileiro é ainda maior


Existe uma informação que muitos estudantes e pais talvez desconheçam: a comercialização de cigarros eletrônicos é proibida no Brasil.

A Anvisa proíbe, desde 2009, a fabricação, importação, comercialização, distribuição, armazenamento, transporte e propaganda desses produtos. Essa proibição foi mantida e atualizada pela RDC nº 855/2024.

Portanto, aquele dispositivo comprado pela internet, oferecido em uma festa ou adquirido informalmente não é simplesmente um produto “vendido normalmente, mas que faz mal”.

Ele é um produto cuja comercialização é proibida no país.

Em junho de 2026, uma operação conjunta da Anvisa e da Receita Federal apreendeu mais de 25 mil dispositivos eletrônicos para fumar em uma ação nacional contra o comércio ilegal desses produtos. A própria Anvisa destacou a preocupação especial com o público jovem.

Isso ajuda a compreender uma contradição que estamos vivendo: um produto proibido consegue chegar às mãos de adolescentes com uma facilidade assustadora.


Tecnologia não significa segurança

Talvez esse seja um dos maiores enganos.

Um vape pode parecer um objeto tecnológico sofisticado. Tem bateria, resistência elétrica, circuitos, luzes, telas e diferentes modos de funcionamento. Mas tecnologia não é sinônimo de segurança.

Os dispositivos produzem um aerossol que é inalado pelo usuário. Os líquidos podem conter nicotina, aromatizantes e outras substâncias. A composição varia entre produtos, especialmente quando estamos diante de um mercado ilegal e sem controle sanitário regular. A Anvisa reúne avaliações técnico-científicas que apontam preocupações relacionadas à toxicidade, segurança, composição e impactos à saúde.

Por isso, não deveríamos olhar para um vape e pensar:

“Parece moderno, então deve ser seguro.”

Deveríamos pensar justamente o contrário:

O que existe dentro desse dispositivo? Quanto de nicotina ele contém? O que estou realmente inalando? Quem fiscalizou esse produto?

Quando a resposta para essas perguntas é “não sei”, já existe um problema.

E os sabores?

    Aqui está uma das partes que mais me incomodam como professor.

    Não é difícil compreender por que um sabor de tabaco pode afastar alguém que nunca fumou, enquanto sabores de frutas, doces, bebidas ou balas podem tornar a experiência mais atraente.

    A OMS identifica os sabores como um fator importante na atração de crianças e adolescentes para produtos de nicotina. Em 2024, a organização estimava a existência de pelo menos 16 mil sabores associados aos cigarros eletrônicos.

    Não estou dizendo que cada fabricante esteja pessoalmente pensando em uma criança específica.

    Estou dizendo algo mais simples:

    quando uma substância capaz de causar dependência é colocada em um produto colorido, discreto, com aparência tecnológica e sabores associados a doces e frutas, temos razões suficientes para discutir seriamente quem está sendo atraído por esse mercado.

    A própria OMS já descreveu essas estratégias de atração de jovens como uma ameaça importante à prevenção da dependência de nicotina.

    “Mas é só uma modinha…”

      É justamente esse pensamento que precisamos questionar.

      Muitas coisas começam como moda.

      O problema é quando a moda envolve uma substância que pode produzir dependência.

      O adolescente pode começar porque os amigos usam. Pode experimentar em uma festa. Pode receber de alguém. Pode comprar pela internet. Pode acreditar que “é só vapor”. Pode não se considerar fumante porque não fuma cigarro convencional.

      Mas o organismo não entende o conceito de modinha.

      Se há nicotina, existe potencial de dependência.

      E quanto mais cedo começa a exposição, maior é a preocupação.

      Isso não significa que todo adolescente que experimentou um vape se tornará dependente ou fumante. Significa que não podemos tratar a experimentação como se fosse biologicamente neutra.

      Aos estudantes

        Não quero escrever isso para vocês como quem aponta o dedo.

        Quero que vocês façam uma pergunta antes de experimentar qualquer coisa:

        Quem ganha quando eu começo a consumir isso?

        Porque existe uma diferença enorme entre escolher conscientemente algo e ser convencido de que determinada coisa é desejável.

        Questionem a propaganda. Questionem os influenciadores. Questionem a aparência. Questionem o sabor. Questionem o grupo. Questionem até aquilo que todo mundo está fazendo.

        Isso também é pensamento científico.

        Não aceitar uma informação apenas porque ela parece verdadeira.

        Investigar. Perguntar. Procurar evidências.



        Aos responsáveis

        Conversem sobre isso antes que o problema apareça.

        Não esperem encontrar um vape na mochila para começar a falar sobre nicotina, dependência e pressão dos grupos.

        E, principalmente, não tratem a conversa apenas como uma bronca.

        Perguntem o que seus filhos sabem. O que os colegas estão usando. Onde conseguem. O que dizem sobre os produtos. O que aparece nas redes sociais.

        Talvez vocês descubram que seus filhos sabem muito mais sobre os dispositivos do que vocês imaginavam — e muito menos sobre os riscos.

        A escola também precisa participar dessa conversa.

        Educação em saúde não deveria acontecer somente quando surge uma emergência.

        Prevenir também é educar.

        Não é uma guerra contra os jovens

        É justamente o contrário.

        É uma tentativa de proteger uma fase da vida em que o cérebro, a identidade, os hábitos e muitas escolhas ainda estão em construção.

        Não precisamos demonizar adolescentes que experimentaram. Precisamos impedir que a experimentação seja transformada em dependência.

        Não precisamos tratar tecnologia como inimiga. Precisamos ensinar nossos estudantes a reconhecer quando a tecnologia está sendo utilizada para tornar um produto potencialmente nocivo mais atraente.

        E não precisamos transformar essa discussão em terrorismo.

        Precisamos de ciência, diálogo, fiscalização e responsabilidade.

        Porque uma coisa precisa ficar muito clara:

        Vape não é bala.
        Vape não é brinquedo.
        Vape não é simplesmente “vapor”.
        E Vape não é uma moda inofensiva.

        É um dispositivo de administração de substâncias que pode conter nicotina, uma droga capaz de causar dependência química — e que, no Brasil, chega aos nossos jovens por meio de um mercado cuja comercialização é proibida.

        Como professor, considero nossa responsabilidade dizer isso claramente.

        Cuidar da infância e juventude também significa impedir que a dependência seja vendida como diversão e banalizada como símbolo de pertencimento a determinado grupo ou geração.

        Convoco a todos os educadores a observarem e refletirem a respeito desta questão em suas próprias realidades e intervirem promovendo os necessários saberes sobre esse preocupante Vapor.

        Prof. M. Sc. Maycon Saviole da Costa
        Biólogo, educador e idealizador da Educação Ávida à Vida
        — por uma Pedagogia da Autopoiese.

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        Referências

        1. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA). Cigarro eletrônico: dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs). Brasília, 2025.
        2. BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. RDC nº 855, de 23 de abril de 2024. Dispõe sobre dispositivos eletrônicos para fumar. Brasília: Anvisa, 2024.
        3. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Tobacco: E-cigarettes. Geneva: WHO, 2024.
        4. WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Information sheet: The role of flavours in increasing the appeal of tobacco, nicotine and related products. Geneva: WHO, 2025.
        5. CENTERS FOR DISEASE CONTROL AND PREVENTION (CDC). E-Cigarette Use Among Youth. Atlanta: CDC, 2024.

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